As mulheres de antenas

Cadê as campuseiras?
Desde o primeiro dia ou até antes mesmo de chegar à Campus Party, os visitantes já sabem que há pelo menos uma coisa que eles não encontrarão com facilidade no maior evento de tecnologia do Brasil: mulheres.
Como na Atenas da antiga Grécia, a participação das meninas ainda é tímida e ainda se limita a poucos assuntos do pensamento high tech. Ou, trazendo a comparação para o mundo da tecnologia, é como se os homens já estivem na conexão wireless enquanto as mulheres ainda usassem antenas.
De acordo com a organização do evento, as descendentes de Eva representam apenas 25% dos participantes do evento. Em outras palavras, para cada três homens há uma mulher. Uma enorme diferença, principalmente se contabilizarmos ao longo das décadas as conquistas femininas no mercado de trabalho e em praticamente todos os segmentos da sociedade.

A jornalista Silvia Damasceno não se considera "tecnológica".
Mesmo com tantos espaços de atrações, a sala de imprensa acaba sendo o lugar mais fácil para encontrar uma proporção igualitária entre os sexos. A jornalista Silvia Damasceno que faz a cobertura para o principal patrocinador do evento não se considera uma mulher “tecnológica”, mas acredita que há possibilidade de atrair o público feminino para eventos como a Campus Party: “O mundo feminino é muito vasto. Nós gostamos de muitas coisas diferentes. Talvez a organização pudesse trazer inovações voltadas para o público feminino”.
Marina Paes, jornalista do Adnews, encontrou dificuldades para encontrar suas pares no evento: “Ontem precisava de uma personagem mulher para gravar e tive dificuldades para achar”. Para ela, os assuntos abordados no evento são “coisa de homem”. “Essa mistura de jogos, simuladores, programas, sistemas e dados é como faculdade de engenharia. Acabam ficando mais homens. A mulher navega na Internet em busca de outros temas”.

Marina acha que a Campus Party é mais "coisa de homem".
A crise é tão latente para os homens que alguns campuseiros criaram um site específico para compilar as fotos das poucas mulheres que se pode trombar no evento. É o Campus Babes http://campus-babes.com/
Por falar em sites, Veridiana Serpa, que comanda o blog Geek Chic, opina que a seca de mulheres se dá talvez pela própria proposta da Campus Party: “o evento em si atrai mais homens. O formato de acampar, trazer computadores, tudo isso assusta mais as mulheres”.
Por outro lado, Veridiana acredita que ainda há esperança: “Se houvesse outros temas aliados à tecnologia, como moda e beleza, a mulher se sentiria mais atraída. Basta ver o palco criatividade que mistura temas gerais com tecnologia. Ele é o mais freqüentado pelas mulheres”, observa.

Veridiana afirma que a maioria dos seus leitores é masculina.
A blogueira que admite contar mais leitores homens no seu site ainda levanta outra questão. Seja pela fase hormonal dos homens do evento (a maioria absoluta entre 18 e 29 anos) ou até mesmo pela já costumeira escassez do sexo oposto, ela aponta para que poderia se definir como uma “abordagem medieval” dos campuseiros:
“o estigma que existe em torno dos ‘nerds’ já é grande. De repente, quando uma mulher bonita passa pelos corredores alguns gritam, mexem no cabelo, pegam no braço. Isso acaba intimidando ainda mais”, conclui Veridiana.
Mas e as mulheres participantes o que pensam disso? Será que esse é um dado irreversível? Parece que não.

Raquel deseja usar a informática aliada ao design.
Raquel de Souza, 21 anos, veio o ano passado e esteve em todos os dias na Campus Party 2010. Ela cursa engenharia da computação e já está acostumada com a maioria masculina: “no meu curso começaram dez meninas. Em um ano, sobraram apenas cinco”.
Ela acredita que a informática atrai mais homens por ser algo mais “padronizado”, com possibilidades de se desenvolver novas ferramentas baseadas na mesma linha de pensamento. Entretanto, ela prefere utilizar os conhecimentos tecnológicos para uma finalidade mais criativa: o design. Aliás, Raquel também acredita que muitas mulheres desconhecem como podem fazer uso da tecnologia de forma mais criativa.
Para ela, ter contato a um evento como essa é uma oportunidade de escutar outras pessoas, trocar experiências e conhecimento. Desse modo, Raquel consegue ter uma decisão mais certeira daquilo que gosta ou não no vasto mundo tecnológico.

A timidez não permitiu a foto. Mas pela mão bem cuidada dá para ver que é menina.
A jovem e tímida Victoria Ventura , 15 anos, cursa o colegial técnico em informática e também não se importa com a superpopulação de homens. Na verdade, ela afirma se sentir bem como a “diferente”. Seu objetivo é conhecer tudo sobre Internet. Aliás, ela dá uma dica para atrair o público feminino: “minhas amigas gostam de fazer compras on-line”.
Nessa mesma linha, Raquel também considera que há saídas para aumentar a frequencia feminina: “trazer algo relacionado à moda e outros temas que tenha a ver com o universo das meninas. Talvez pudessem ter uma parte no evento dedicada para as mulheres”.
Entretanto, mesmo com o deserto de mulheres na Campus Party, muitos marmanjos participantes afirmam que esse ano “a coisa está bem melhor”. Ou seja, a participação das mulheres ainda que discreta, mas tem crescido e pode ser uma valiosa dica para as próximas edições.

