Até que ponto movimentos como blogagens coletivas, mobilizações como o #ForaSarney e o uso da rede para politizar as pessoas são efetivas? Este foi o tema do debate “Revolução do sofá ou a evolução das mobilizações sociais?”, que contou com a participação de Rafael Ziggy (BlogVoluntário), Marcelo Vitorino (Doe Mais que um Clique), Rafael Losso (MTV), Felipe Fonseca (Rede Metareciclagem) moderados por Jorge Rocha (Exu Caveira).

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Segundo Rafael Ziggy, com a revolução do sofá muita coisa fica no oba-oba, por conta da lei do menor esforço. Algumas coisas podem até funcionar, mas somente em temas que estão ligados a internet, como por exemplo o Movimento Blog Voluntário, idealizado com o projeto Voluntários Online, que busca mobilizar os blogs e combater o analfabetismo digital, e que contou com a participação de quase 1000 blogueiros em 2008 e 2009. No ano passado, surgiram quatro livros eletrônicos falando sobre o assunto. Este movimento deu certo pois as pessoas que foram convocadas já estão acostumadas a escrever, e só precisaram adequar as pautas dos seus blogs ao assunto que foi proposto.

De acordo com Rafael Losso, o termo “revolução do sofá” remete a TV e não conseguir tomar uma atitude a respeito do que assiste e se indigna. A internet seria uma forma de mobilizar mais pessoas , mas isto não tem acontecido automaticamente, e está sendo feito de forma lenta, com temas e motivos menores, assim a atitude das pessoas continua a ser a mesma de antigamente, quando se indignavam com o que viam na TV e nada faziam.

O poder de mobilização da internet é melhor percebido em eventos como a Campus Party, onde os participantes tem a chance de alcançar a grande mídia e a possibilidade de tornar seus temas conhecidos e por consequência, mais relevantes. A campanha online de Barack Obama também é outro exemplo de como a ideologia conseguiu transformar o mundo. Sob uma ótica negativa, os objetivos não são alcançados de forma tão simples, como por exemplo o #ForaSarney, que serviu mais como válvula de escape das angústias das pessoas do que como uma ação em si. O movimento não gerou nenhum evento efetivo, as passeatas não tiveram repercussão e nem participantes. As pessoas tiveram a chance de dar vazão as suas indignações pela internet, mas nada além disto. É algo parecido com uma pixação em um muro, que com o tempo é apagada e não gera resultados a longo prazo.

Felipe Fonseca defende que a ideia de uma revolução feita pela Internet é ilusória, e que os indíviduos devem desconfiar e questionar uma mobilização que se restrinja ao ambiente online. A democracia tem sido tratada como torcida de futebol, e isso é maléfico, porque as pessoas só podem falar bem de um lado. Segundo ele, é necessário realizar um debate mais amplo, onde a população possa ir mais a fundo na transformação que pretende fazer, caso contrário se trata de uma exposição gratuita.

Marcelo Vitorino criou junto com o Edney Souza a campanha ” Doe mais que um clique”, e ficou decepcionado com o resultado. Ele diz que não podemos dizer que a Internet é responsável por não alcançar as pessoas, e considera que a culpa é do analfabetismo social existente, que impede atingir os números desejados, citando como exemplo o fato de 10 dos 7 maiores trending topics do Twitter no Brasil tratarem do #BBB.

Ele citou a grande quantidade de movimentos baseados em retweets, enquanto que o cidadão nem percebe se o que está sendo RT é realmente importante. Segundo Marcelo, se na época das “Diretas Já” existisse Internet e twitter, talvez nada de prático tivesse sido feito. Esta crítica se estende a todos, inclusive a ele mesmo.

Apesar do seu blog “Pergunte ao Urso” ter um tom humorístico, ele também escreve sobre política e já foi até mesmo ameaçado de processos por citar políticos nominalmente, o que ocasionou o movimento #FreeUrso no Twitter. É importante também lembrar que quantidade não significa relevância, e que é necessário revermos nossas vidas como ativistas sociais, já que todos podem ter um papel social na sociedade.

Jorge Rocha se mostra cético em relação a mobilização do sofá, dizendo que o problema é que as pessoas podem pensar que a revolução irá acontecer através da troca de informações online, sem que sejam acompanhadas de qualquer atitude offline.

Felipe Fonseca diz que blogs e Twitter são apenas ferramentas, as que são as pessoas por trás destas ferramentas que realizam as transformações, são elas que fazem as coisas acontecerem. Um exemplo prático de uma mudança verdadeira é um multirão para ajudar a construir uma casa para quem precisa.

Marcelo Vitorino acha que o Twitter poderia ser grande ferramenta, mas que infelizmente é mais fácil reunir 20 pessoas para beber uma cerveja do que apenas uma para doar sangue e ajudar a salvar vidas. Ele acredita que a Internet serve para espalhar a mensagem, mas não para montar um movimento real.

O que existe de mais efetivo em campanhas online é resultado de um esforço no mundo offline, como a campanha na TV sobre a prevenção do câncer e que contou com um apoio online na divulgação. Marcelo acredita que movimentos online não têm poder se não contarem com um respaldo offline. Criar um grupo social é fácil, agora fazer com que ele funcione e continue ativo sem qualquer tipo de censura é o mais difícil. Um bom exemplo é a Wikipedia do Brasil, onde um pequeno grupo decide o que tem relevância ou não para todos e assim censura o que deve ou não ser exibido, algo radicalmente diferente da Wikipedia nos Estados Unidos.

Na realidade as ferramentas que estão disponíveis aos cidadãos não estão sendo utilizadas para mudar o mundo, o que é uma pena, segundo Rafael Losso.