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11/07/2014

7 x 1: o despreparo na gestão de uma crise

Conforme a seleção alemã ia passando com a maior facilidade pela defesa brasileira, fui me distanciando e tentando entender o que estava acontecendo naquele momento. Que a Alemanha ia ganhar era quase um consenso geral entre aqueles que analisam o futebol com fatos e dados e não apenas com o coração. Mas levar 4 gols em sequência e estar apenas com 20-25 minutos de jogo foi algo totalmente fora da imaginação (a não ser daquele senhor paranaense ganhador do Bolão).

Tudo aconteceu rápido. De repente o principal zagueiro brasileiro estava no ataque, o meio-campo não sabia se ia ou voltava. No meio da indecisão de alguns, desespero de outros e paralisia do técnico, a seleção alemã passeava pelo campo e fazia os gols na sequência. E eu me lembrei de algumas vezes em que, em circunstâncias completamente distintas, vi grupos de pessoas agirem assim: era um momento de pânico frente a uma situação difícil.

Foi assim que um momento crítico - com o placar em 0 x 2 (que seriam completamente possíveis de reverter com mais 70 minutos de jogo) - se transformou em uma crise instalada com o placar de 0 x 5 nos 8 minutos seguintes. Até o final do jogo, foi um suplício ver o time em momento "barata voa", sem entender que, antes de tudo, eles tinham de voltar a fazer aquilo que sabiam fazer direito.

Todos são bons no que fazem, reconhecidos em seus clubes, detentores de títulos internacionais. Alguns já haviam enfrentado e estavam acostumados ao jeito de jogar alemão, então por que ficaram atônitos em campo e não tiveram poder de reação? Para quem lida com situações críticas com alguma frequência, ficou claro que o time do Brasil não havia sido preparado para enfrentar uma situação adversa.

Ao tomar o segundo gol, foi como se todos já pensassem que o jogo havia terminado ali. Ninguém teve serenidade para olhar a situação (ainda teríamos 70 minutos pela frente, tempo para pelo menos empatar e levar para prorrogação), reorganizar o time para que o grupo voltasse a fazer o básico que sabe fazer bem feito (defender a área), corrigir os erros e aí sim sair para tentar fazer o gol.

No campo, não havia uma pessoa com essa capacidade de analisar o momento e tomar providências imediatas para conter a crise. Do lado de fora, o técnico que teria a possibilidade de dar alguma instrução, chamar a atenção de pelo menos um deles para que tivesse calma, também não foi ágil.

Até onde eu assisti ou li, em todas as entrevistas que deu, o técnico diz não saber o que foi que aconteceu naqueles minutos. Então eu te digo: foi pânico. Algo comum de acontecer quando as pessoas enfrentam situações de risco (caso duvide, pergunte a um bombeiro ou a um socorrista como é que as pessoas normalmente agem quando há um incêndio ou um acidente).

É parar evitar esse tipo de reação que grandes empresas se preparam para uma crise fazendo treinamentos, simulando situações de risco e ajudando seu time a gerenciá-las, avaliando as decisões, as consequências e, acima de tudo, preparando a equipe para ter um pouco mais de calma, para entender o que enfrenta e garantir uma reação mais pronta para a solução do problema.

Como torcedora da seleção brasileira, tenho que admitir que a semifinal entre Brasil x Alemanha é um exemplo do mau preparo do Brasil e do bom preparo alemão para enfrentar riscos (os alemães tinham um plano de jogo em que sabiam exatamente o que deveriam fazer até no caso da partida chegar aos pênaltis).

Agora, com a crise instalada, só posso torcer para que Felipão e toda a equipe técnica tenham a capacidade de avaliar os erros, tomar medidas imediatas para corrigi-los e deixar claro a todos os seus stakeholders - a começar pelo público interno (o time) - qual o plano para reverter a situação e qual o papel exato que cada um deve desempenhar no próximo jogo.

Afinal, apesar da opinião geral de que para o brasileiro nada vale além do título, todos nós sabemos que se o Brasil jogar bem contra a Holanda, mais do que conseguir o terceiro lugar do Mundial, poderá começar o processo de recuperação da sua imagem com duas mensagens-chave: 1 - o que ocorreu no jogo contra a Alemanha foi um fato isolado e isso não vai se repetir novamente; 2 - a seleção brasileira tomou providências imediatas para minimizar os impactos do ocorrido.

Para que essas mensagens tenham credibilidade e construam uma base sólida para a gestão dessa crise é preciso entregar resultados que comprovem que o discurso é reflexo de uma realidade. Só assim a Seleção Brasileira dará o primeiro passo para um longo caminho de reconstrução.

Será um caminho árduo, como várias empresas que passaram por recall e tiveram sua qualidade e credibilidade questionadas bem o sabem. Ele exigirá mudanças na maneira de fazer as coisas, postura vigilante para que o erro não se repita e abertura para o diálogo com os diferentes públicos. E, sim Felipão, será preciso milhões de vezes dizer e comprovar que o 7 x 1 não é a realidade da Seleção. A cada jogo, a cada convocação, a cada conversa entre família e amigos, a cada entrevista ou coletiva de imprensa. Não será possível demonstrar irritação ao falar do assunto. Será preciso ter paciência e, como uma formiguinha, reconstruir um ambiente de confiança e restaurar a reputação do grupo.

Assim, quem sabe, daqui a 4 anos, possamos conquistar uma reversão da imagem negativa deixada pelos 7x 1 com uma vitória de um time que sabe superar adversidades e está preparado para enfrentar momentos de risco. É o que todos nós, torcedores brasileiros, mais desejamos.

 

Lia Mara Sacon
Brasileira, Corintiana e profissional da comunicação

 


  • Gerente de comunicação
  • Jornalista formada pela PUC-SP, iniciou carreira em 1994, atuando como repórter em redações de jornal e agências de notícia. Desde 2001, tem se dedicado à comunicação corporativa, atendendo empresas como Robert Bosch, Eternit, Holcim, Quattor e Audi. Entre suas atividades estão análise e estruturação do processo de comunicação, planejamento e implementação de planos de comunicação, ações de relacionamento, gerenciamento de crises, preparo de porta-vozes e organização de eventos.

  • Lia Mara Sacon

contatos: [lia.sacon@inpresspni.com.br]
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